Nos últimos dias, o caso mais comentado na mídia foi o falecimento da soldado Gisele. Agora, nos deparamos com as mensagens que ela trocou com seu marido, que mostram toda a dor à qual ela era submetida. O caso é assustador: ela foi morrendo todos os dias ao ser humilhada, destratada e desprezada.
Por isso eu digo: todos os dias, o feminicídio encerra, de forma brutal, um ciclo de sofrimento e dor que vai destruindo, aos poucos, milhares de “Giseles” em todo o país.
Gisele era uma moça cheia de sonhos, que ingressou na Polícia Militar do Estado de São Paulo com o desejo de fazer o bem. Quando vemos uma policial militar fardada na rua, temos a visão de uma mulher forte e corajosa, mas infelizmente não nos damos conta da mulher que existe por trás de uma farda. Essa mulher também é mãe, cumpre uma jornada exaustiva e precisa provar todos os dias, em seu trabalho, que é tão capaz quanto os homens que exercem a mesma função dentro da Polícia Militar.
Essa mulher cuida de seus filhos, da casa e ama como qualquer outra. Tem cólicas e, muitas vezes, vive uma dor profunda sozinha. Muitas ainda vivem em relações abusivas e não conseguem sair delas. Uma policial militar tem, em sua maioria, homens como colegas de trabalho e, muitas vezes, não consegue desabafar com eles por vergonha da situação que enfrenta diariamente. Infelizmente, essa situação acaba se arrastando por anos.
Quando somos vítimas de violência doméstica, sofremos sozinhas. Choramos em silêncio, pois queremos poupar nossos filhos da dor que estamos sentindo e temos vergonha de contar o que passamos.
As mensagens divulgadas na mídia relatam a realidade de milhares de mulheres em todo o país. Infelizmente, a violência doméstica só ganha credibilidade quando acompanhada de imagens ou quando o ciclo se finaliza com o feminicídio. Muitos ainda dizem que é “chilique de mulher”, mas a realidade é uma só: só sabe a dor quem vive.
A morte da soldado Gisele deixa uma grande dor à sua família e à sua filha, que agora se torna mais uma órfã do feminicídio. Mas também nos deixa um questionamento: até quando vamos ver essa situação triste se repetindo diariamente?
A escravidão já acabou há mais de um século, mas ainda há homens que agem como senhores de engenho, acreditando ter o direito de dispor da vida de suas companheiras.
Sandra Campos conhece bem a dor e a transformação que podem nascer do sofrimento. Há dois anos, perdeu seu filho de 24 anos para o suicídio. Desde então, decidiu transformar a dor em propósito e passou a atuar como ativista pela vida por meio do projeto “Não te julgo, te ajudo!”.
Hoje, Sandra se coloca à disposição para ouvir, gratuitamente, pessoas que estejam em sofrimento emocional, oferecendo acolhimento, escuta e humanidade a quem mais precisa.


