Recentemente, os Estados Unidos divulgaram uma revisão histórica de suas diretrizes alimentares, trazendo de volta o conceito da pirâmide alimentar, porém invertida, com um foco claro em alimentos “de verdade” e o fim das mensagens simplistas que dominaram os últimos 40 anos. A nova proposta, que integra as Dietary Guidelines for Americans 2025–2030, passou a colocar as proteínas em destaque, prioriza frutas, vegetais, grãos integrais e gorduras naturais, e empurra os alimentos ultraprocessados e os açúcares adicionados para o final da pirâmide.
A mudança foi recebida com entusiasmo por parte de quem defende um retorno à alimentação menos industrializada. Ao mesmo tempo, levantou críticas importantes sobre o destaque excessivo a carnes vermelhas e gorduras saturadas, algo que entra em conflito com décadas de evidência científica sobre risco cardiovascular. Ainda assim, a mensagem central é clara: a alimentação baseada em produtos altamente processados perdeu espaço, e os alimentos naturais voltaram a ser protagonistas.
Mas, para quem acompanha as diretrizes nutricionais brasileiras, essa suposta revolução americana soa curiosamente familiar. No Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira já defendia, há mais de uma década, exatamente essa lógica. Em vez de organizar a alimentação apenas por grupos de nutrientes ou porções ideais, o guia brasileiro se baseia em algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundo: a comida de verdade. Ele afirma que alimentos in natura ou minimamente processados devem ser a base da alimentação, que os ultraprocessados devem ser evitados e que comer é um ato que envolve cultura, prazer, convivência e identidade, e não apenas calorias ou proteínas.
Desde sua primeira versão, em 2006, e especialmente após a revisão de 2014, o Brasil se tornou referência mundial por adotar uma abordagem que foge do reducionismo nutricional. Enquanto grande parte do mundo ainda discutia se o vilão era a gordura, o carboidrato ou o colesterol, o guia brasileiro já apontava para um problema mais estrutural: o excesso de alimentos ultraprocessados na dieta moderna.
É justamente isso que agora ganha destaque nos Estados Unidos. Lá, a mudança virou manchete, debate político e até motivo de polêmica entre setores da indústria alimentícia. Aqui, no entanto, esse discurso já faz parte das políticas públicas de alimentação e nutrição há anos, apoiado pela classificação NOVA, que categoriza os alimentos pelo grau de processamento e mostra, com clareza, que quanto mais industrializado o produto, maior o impacto negativo sobre a saúde.
Esse contraste revela muito sobre como a ciência da nutrição evoluiu e sobre como ela pode ser atrasada ou acelerada por interesses econômicos. Em países como os Estados Unidos, a influência da indústria alimentícia sobre as recomendações oficiais sempre foi um entrave para mudanças mais ousadas. No Brasil, apesar de inúmeros desafios, a diretriz oficial conseguiu avançar para além da simples contagem de nutrientes e passou a olhar para padrões alimentares completos, para o ato de cozinhar, para a origem dos alimentos e para os efeitos da industrialização sobre o corpo e a sociedade.

