Nos últimos meses, a tirzepatida deixou de ser apenas uma opção terapêutica para diabetes tipo 2 e passou a ocupar um espaço de protagonismo no emagrecimento. Os resultados são, de fato, expressivos. Mas existe um problema na forma como esse recurso vem sendo utilizado: ele tem sido tratado como solução quando, na realidade, deveria ser parte de uma estratégia.
E é justamente nesse uso descontextualizado que começam a surgir os efeitos colaterais que hoje ganham visibilidade, entre eles, a pancreatite.
A pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode variar de quadros leves até condições potencialmente graves, com necessidade de hospitalização. Clinicamente, costuma se manifestar com dor abdominal intensa, náuseas e vômitos, além de alterações laboratoriais como aumento de amilase e lipase. Não é uma condição rara, e tampouco nova. O que muda agora é o contexto em que ela aparece.
As canetas emagrecedoras, atuam diretamente em vias hormonais que regulam não apenas a glicemia, mas também o esvaziamento gástrico, a saciedade e a dinâmica do trato gastrointestinal. Esse efeito sistêmico é exatamente o que torna o medicamento tão eficaz. Mas também é o que exige mais responsabilidade no uso.
O que tenho visto são pacientes iniciando o uso do medicamento sem uma avaliação adequada desses fatores. Sem investigação de triglicerídeos, sem olhar para histórico biliar, sem ajuste alimentar prévio. E principalmente, sem acompanhamento nutricional.
Existe uma ideia implícita de que, ao reduzir o apetite, o medicamento automaticamente melhora a relação do paciente com a alimentação. Isso não é verdade.
Na prática, o que acontece com frequência é o oposto: o paciente passa a comer menos, mas não necessariamente melhor. Pula refeições, reduz drasticamente a ingestão proteica, mantém escolhas alimentares de baixa qualidade e, em muitos casos, aumenta proporcionalmente o consumo de alimentos mais gordurosos por conta da baixa quantidade total ingerida. Do ponto de vista metabólico, isso é um cenário fértil para problemas.
A restrição calórica desorganizada pode agravar a perda de massa magra e alterar o metabolismo lipídico. Paralelamente, dietas ricas em gordura, especialmente em indivíduos predispostos, aumentam a sobrecarga pancreática. Some isso a possíveis alterações na motilidade gastrointestinal induzidas pelo fármaco, e temos um contexto que favorece complicações.
O acompanhamento nutricional não entra aqui como um “complemento estético” ou um refinamento do processo. Ele é uma ferramenta de segurança clínica. É através dele que conseguimos reduzir triglicerídeos, ajustar a ingestão de gorduras, organizar a distribuição alimentar, garantir aporte proteico adequado e preservar massa magra durante o emagrecimento.
Além disso, é o nutricionista que muitas vezes identifica precocemente sinais de alerta seja pela evolução dos sintomas, seja por alterações no padrão alimentar que aumentam o risco metabólico.
Existe uma diferença importante entre potencializar resultados e sustentar resultados com segurança. Hoje, muitos pacientes estão conseguindo o primeiro. Poucos estão garantindo o segundo. Ignorar isso é, talvez, o erro mais silencioso e mais comum desse novo cenário.

