Eu poderia escrever sobre desenvolvimento infantil. Sobre aprendizagens, descobertas, vínculos, linguagem, autonomia e tantos outros aspectos que fazem da infância um tempo tão importante para a constituição de cada pessoa. Poderia falar sobre aquilo que a escola observa, planeja e acompanha todos os dias.
Mas, hoje, quero falar sobre algo que não cabe em um planejamento: a beleza da infância.
A infância é um lugar por onde só passamos uma vez. E talvez seja justamente por isso que ela mereça ser vivida com presença, encantamento e tempo.
O primeiro passo. A primeira palavra. A chuva que vira brincadeira. As mãos mergulhadas na terra. Uma pergunta inesperada. Um desenho que, aos nossos olhos, parece simples, mas que, para aquela criança, conta uma história inteira.
Malaguzzi nos ensinou a olhar para a criança como um ser potente, curioso e capaz de construir sentidos sobre o mundo. Vygotsky nos mostrou a força das relações e das experiências na construção do desenvolvimento. E talvez a maior beleza esteja justamente aí: a criança descobre o mundo enquanto nós descobrimos, com ela, uma nova maneira de enxergá-lo.
Que privilégio é acompanhar tudo isso de perto.
Chegar em casa e receber aquele abraço verdadeiro, apertado e cheio de saudade, mesmo depois de poucas horas. Ouvir uma história contada pela décima vez. Parar para observar uma pequena descoberta que, para nós, poderia passar despercebida.
A infância pede presença. Pede olhos que enxerguem, ouvidos que escutem e braços disponíveis para acolher.
Porque, um dia, os primeiros passos deixarão de ser pequenos. As perguntas ganharão outras respostas. O colo será menos procurado. E aquela mão, que hoje segura a nossa, encontrará seu próprio caminho.
Por isso, enquanto a infância acontece, que possamos estar verdadeiramente presentes.
Brincar mais. Apressar menos. Olhar mais. Registrar menos. Viver mais porque talvez o maior presente que podemos oferecer a uma criança não seja aquilo que colocamos em suas mãos, mas aquilo que deixamos guardado em seu coração: a certeza de que, enquanto ela descobria o mundo, alguém estava ali para descobri-lo junto com ela.
Escrito por: Jussara Soares.
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